Bate o sinal.
Vou em direção ao meu recanto mágico.
- Professora! Professora!
Eram duas lindas alunas do ano passado que estavam a minha procura.
- Pra senhora!
Entregaram-me um pacotinho branco e dentro dele uma pulserinha cheia de pimentinhas.
- É contra o olho gordo, tia!
Beijei e abracei as duas, e uma pequena desse ano veio em minha direção, colocou o pequeno bracinho em torno da minha cintura (bem abundante) e disse:
- Venha , professora. Estamos te esperando!
Senti uma pontinha de ciúmes e possessividade.
Entro na sala, começo a me ajeitar.
Com um certo atraso, um aluno (que foi meu ano passado) entra na sala.
Depois de cinco minutos duas professoras me chamaram:
- Seu aluno X esteve envolvido em uma briga, e se não fosse o Y ele teria acabado com o outro que é bem menor do que ele!
Falei que o caso tinha que ser encaminhado para a direção.
Voltando ao tempo.
O X no ano de 2010 me causou "n" problemas.
Não fazia lição.
Não estudava.
Não se interessava.
Nunca me respeitou.
Desafiava-me.
O stress era nosso grande amigo.
Nunca dei as costas para ele. Nunca o abandonei.
Chamei sua família, (poucas vezes compareceu) para conversarmos sobre o aluno para que juntos pudéssemos auxiliá-lo.
Seu histórico familiar é um dos mais pesados da unidade escolar.
Seus irmãos mais velhos não estão seguindo a melhor estrada, e me preocupo demais com ele.
Acontece que esse ano, o X é outro menino.
Faz a lição.
Estuda.
Se interessa.
Me respeita.
Acata minhas decisões.
A paz é nossa grande amiga.
Nunca dei as costas para ele. Nunca o abandonarei.
Sentei ao seu lado, perguntei o que tinha acontecido.
Ele me olhou com um belo ar de interrogação.
Seus olhos , sua expressão, sua atitude eram verdadeiros.
- Não fiz nada, tia. Foi um outro aluno.
Então ele é chamado na direção.
Resultado: uma bela advertência.
Ele entra , amassa o papel com raiva lentamente, e volta para o seu lugar.
Peço para que a classe continue a realizar a tarefa dada.
Sento-me novamente ao seu lado, e pergunto o que aconteceu.
A mágoa estava estampada no seu rosto. Amassava o papel e o segurava com os punhos fechados.
- Eu não fiz nada!
Abaixou a cabeça e chorou.
Enquanto conversava, folheei o seu caderno.
Lições feitas (nem todas), mas o caderno tinha a sua letra, o seu esforço.
Não era um caderno em branco como do ano passado.
Chamei a inspetora.
- O que houve com meu aluno?
- Não sei, quer que eu fique aqui e você pergunta para a assistente?
Não precisei, ela veio no meu andar para entregar uma aluna em outra sala, aproveitei e conversei com ela.
Perguntei o que tinha acontecido.
Ela me contou os fatos que todas as crianças envolvidas falaram para ela.
Expliquei e falei sobre o meu aluno.
Contei o que ocorreu em 2010, e que parecia que ele era outro esse ano. Ela não estava na escola no ano passado.
Falei que estava estranhando muito a atitude dele, e que os olhos dele me diziam que estava inocente de alguma forma.
Conversamos muito e ela pediu para eu chamar novamente o X.
Fiquei com a classe, e depois de alguns minutos ele entra, e sou chamada novamente.
- Professora, eu retirei a advertência dele, mas fizemos um acordo de homens, caso ele se envolva em algum tipo de confusão, ao invés de uma, ele levará duas. Falei que a senhora disse que ele era outro menino esse ano, e que daria uma chance para ele.
- Perfeito!!!!! - agradeci e dei um abraço nela.
Não poderia deixar as coisas simplesmente acontecerem. Ele foi terrível, e pode ainda ser, mas não é um aluno violento, de má índole. Não seria eu , depois de tanta mágoa e dor expressa naqueles olhos, deixar as coisas como ficaram. Isso poderia afetar todo um ano letivo que está sendo caminhado de maneira tão tranquila.
Ele precisa vencer e crescer.
Amadurecer, ter experiências gratificantes na sua vida. Sua realidade já não é fácil... Não! Eu não vou abandoná-lo jamais!
Hoje, voltei para casa muito mais serena e feliz!
quinta-feira, 31 de março de 2011
terça-feira, 29 de março de 2011
Indústria da seca
- Camelem, camelem para pegar água!!! Eu não preciso disso!!! Tenho grana, sou poderosa... Vocês, seus pobres coitados, caminhem até se cansar para chegar nos lugares onde vocês possam pegar um pouco de água. Eu não precisoooooooooo!!!!! Sou poderosaaaaaaaa!
- Credo, tia! É assim?????
- Você não tem direito de reclamar, você vendeu seu voto por causa de alguns litros de água. Agora aguente as consequências!!!!
- Mas tia....
- Chega!!!! - esbravejei, com cara de maquiavélica!
Eles me olharam um pouco assustados. Será que a professora deles pirou?????
Por que será que ela está falando assim???? Que pessoa má!
Essa era a intenção!!! Mostrar a crueldade do que acontece nas camadas mais pobres da nossa sociedade no nosso sertão brasileiro, e eles entenderam.
Ficaram em silêncio com as minhas explanações e respondiam quando eu os questionava e respondiam de forma coerente.
Indignados, falaram que os políticos corruptos precisavam mofar na cadeia, que não é justo eles terem liberdade.
Não é, mas eles tem. E o pior, a culpa é da população que os elegem.
Saiu o assunto da ficha limpa, do voto de protesto e da obrigatoriedade do voto.
Como eles perguntam quando são instigados!
Terminei com um trecho do poema de João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina.
"... E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida)..."
(João Cabral de Melo Neto)
sábado, 26 de março de 2011
RACIOCÍNIO
Prova de Matemática....
Elaborei uma prova em cima dos últimos acontecimentos no Japão. Achei que eles iriam mal, mas os danadinhos até que foram bem, salvo algumas exceções , é claro!
Inseri uma notícia e nele tinha alguns dados que as crianças precisavam usar para realizar os exercícios: número de mortos, número de desaparecidos, número de casas destruídas,etc...
Uma das questões perguntava qual era a diferença entre os mortos e os desaparecidos.
Resposta: Os mortos já eram, morreram, não tem solução mas os desaparecidos ainda existe esperança de achá-los vivos.
Não sou feita de ferro, cai na gargalhada lendo a resposta (deixo bem claro que estava sozinha) tão bem pensada do meu aluno.
Sinto muito, não sei se estou certa ou se estou errada, mas não dei totalmente errado.
Fiz uma observação que ele deveria ficar um pouquinho mais atento, pois era uma prova de Matemática, mas que o pensamento dele estava correto. Morreu, já era!
Nossa língua é complexa demais. Se nós erramos tanto...
Até hoje não me conformo com meu 9,5, pois a questão que eu errei foi : qual o diminutivo de homem? Coloquei anão.
Estava errada?
Não consegui fazer um X bem grande nessa questão. Claro que irei conversar com ele mas não posso desconsiderar que ele foi coerente na sua explicação, pena que em contexto errado!
sexta-feira, 25 de março de 2011
SNOOPYMANIA E LEITURA
Às vezes penso que não sei o que eu estou fazendo.
Muitas ideias surgem durante o dia, e simplesmente as ponho em prática, e dá certo...
Um dia desses, estávamos conversando a respeito do adulto também ter o seu lado infantil, e que lamentava muito como a infância está cada vez mais curta.
Falei que a melhor época da nossa vida é quando somos crianças e que fazia questão de cultivar esse meu lado.
Um aluno observou:
- É tia, dá para perceber.
- Como?
- Uma coisa que a gente já notou é essa mania da senhora pelo Snoopy.
Eles sempre tocam nesse meu ponto. Por que será?
Então expliquei para eles que era uma paixão antiga, que nem me lembro como começou mas que não vejo a minha vida sem estar ligada a esse personagem.
Meu primeiro, ganhei quando tinha aproximadamente 7 pra 8 anos e ainda o conservo.
Contei também da vez que meu avô me levou para a loja de brinquedos pedindo para que eu escolhesse qualquer brinquedo, (já relatei o caso aqui anteriormente), e a decepção dele foi quando peguei nas mãos um mini Snoopy.
Perguntaram-me se eu ainda os tinha.
- Claro!!! Vocês acham que só porque eles estão velhinhos eu os abandono?? São meus companheiros!
- Traz para gente ver????
- Com certeza!!
E hoje eu levei os meus queridinhos.
Eles se encantaram, o sorriso deles não dá para descrever.
Deixei eles tomando conta da classe quando fui pegar o dicionário, e parece que eles entram na minha goiabice, pois se comportaram.
Então, chegou a hora de aplicar aquela prova!!!
Montei uma avaliação baseada no Tsunami do Japão. Português X Matemática.
No final da aula, para estimular a criatividade deles (isso veio na minha cabeça durante o decorrer o dia), pedi para fecharem os olhos e imaginar as situações que eu colocava. Uma técnica de relaxamento, ligada a produção de textos e artes, pois terão que aplicar a técnica que ensinarei para eles na segunda-feira. Uns dormiram, outros inquietos, falavam comigo quando eu fazia perguntas que eram para serem respondidas no silêncio.
Estão aprendendo a gostar de ler e escrever. Dou espaço para que isso aconteça. Estimulo. Tenho buscado atividades diversificadas.
Saio da sala de aula com uma sensação de missão cumprida, mas com medo que isso de repente não passe de sonho.
Pois a minha sala de aula é o melhor lugar do mundo para se viver e conviver. Pode parecer exagero, mas não é. Sinto que cada dia estamos mais unidos e felizes.
quarta-feira, 23 de março de 2011
CARTAS ESPERAM RESPOSTAS
Meus dias não estão tão coloridos. O melhor lugar que me sinto bem é trabalhando com as minhas crianças.
Essa semana está um pouco difícil, eu sei que vai passar e espero que passe logo.
Antes de começar a aula, eu tinha convidado os meninos e as meninas a aprenderem a fazer a florzinha de viés, lembram?
Hoje, apareceu um menino, todo animado.
Achei fantástico, ele com todo o materialzinho e empolgado, aprendeu tudo rapidinho. A flor dele ficou maravilhosa. Os outros garotos também se animaram a fazer a aula.
Claro que em algumas ocasiões eles dão algumas derrapadas quanto às diferenças, mas percebo um certo respeito entre eles.
Nas aulas anteriores falamos bem sobre as cartas.
Contei da magia que era esperar o carteiro e aguardar as surpresas que poderiam estar dentro de um simples envelope.
Relatei fatos da minha história para eles.
Levei algumas correspondências particulares para olharem, tocarem. O conteúdo não era nada de extraordinário!
Como eles se sentem importante!!!
No meio dessas cartas, tinha um envelope com umas cédulas de dinheiro antiga: cruzeiro, cruzado, novo cruzado. Propus que no final da aula eu sortearia uma cédula.
Bem, pedi como lição de casa para que escrevessem uma carta para mim. Poucos realizaram a tarefa, mas amei ler aquelas linhas que chegaram nas minhas mãos.
Toda carta merece resposta, e para cada aluno que me escreveu , eu respondi prontamente.
Algumas eram bem sucintas, classificaria como bilhete...
Outras eram mais do tipo "viajando na maionese". Uma imaginou que estava em Paris cursando moda e que tinha saudades minhas.
Uma menina graciosa me escreveu dizendo que ela aprendeu a amar a frequentar a escola, pois sabia que teria horas com uma professora agradável e divertida.
Um aluno me falou que está me adorando pois o fiz entender fração. (depois da aula com a caixinha de bis...)
Foi muito gostoso ler as linhas dos meus alunos, receber o carinho que ando precisando tanto.
Enquanto uns gritam, outros me acolhem.
Ensinei a eles escreverem um envelope, expliquei a função do CEP e de como é importante saber escrever com um layout limpo.
- Pelo amor de Deus, tenham pena do carteiro!!!! Poupem a visão do nosso amigo!!!
Eles davam risada, mas realizaram a tarefa direitinho conforme as minhas orientações.
Quando estou com eles, estou feliz. Sou plena, sou inteira. Sou a Luciana sem medos, com sonhos, cheia de vida e através dos olhares pueris consigo forças para prosseguir.
Sinto paz, crio esperanças.
Vejo um futuro melhor e sei que ele será!
terça-feira, 22 de março de 2011
NOSSA CAMINHADA CONTRA A DENGUE
Hoje sai com meus pequenos pela primeira vez.
Por mais que eu tenha orientado, criança é criança!
No final eu daria nota 7,0 para eles em relação ao comportamento, pois esqueceram de alguns combinados.
Tive o apoio da professora de Educação Física, o que foi fundamental, sempre é muito bom trabalhar com pessoas que nos apoiem.
Durante duas semanas, fizemos nosso repelente caseiro, trabalhamos o conteúdo bem trabalhadinho.
Reforcei as orientações finais, e saímos.
Não conheço muito bem o bairro.Se eu deixasse por conta da molecada, faríamos um tour na casa de cada um, mas não era essa a intenção, certo?
O primeiro lugar que paramos foi num bar, e eles puderam colocar em prática o conhecimento que adquiriram que com o nervosismo estava um pouco travado. Isso foi no começo, depois se soltaram. Tomavam a iniciativa, se organizavam, e quando eram chamados a atenção, obedeciam.
Fizeram um bom trabalho, poderiam ter feito melhor, afinal eu sou exigente e falei isso para eles.
Depois, já na sala de aula, levei umas cartas pessoais assim como fiz no ano passado para que pudessem visualizar uma carta, um selo (já que nunca tinham visto na vida) e dentro de uma delas, tinha duas fotografias minhas quando era uma jovem com meus 18 anos.
Os meus anjinhos falaram na lata:
- Tia, podemos falar algo para a senhora?
- Sim, claro! (lá vem bucha!)
- A senhora não mudou nadinha!!!
- Todo mundo já passou de ano! - e comecei a desfilar no meio da sala de aula e eles caíram na gargalhada!
Dizem que criança não mente, prefiro acreditar nisso e ser feliz!
sexta-feira, 18 de março de 2011
RISOS E DENGUE
Hoje meu dia foi tão produtivo!!
Colocamos nosso repelente caseiro em saquinhos de chup-chup para entregarmos na segunda-feira.
Revisei todo o conteúdo da dengue.
Expliquei como seria nossa saída.
- Quando nós tocarmos a campainha e as pessoas atenderem, iremos estender o braço e dizer: "Tó"?
Eles caíram na gargalhada.
Então simulei com eles como nós deveremos fazer, acalmei a turma avisando que estarei por perto e que nada de errado acontecerá.
Pedi que viessem de uniforme e que quem não tivesse, que pedisse emprestado para algum amigo.
Muitas crianças se prontificaram a emprestar.
Essa turma é um doce. Não tenho caso de violência dentro da minha sala, to conseguindo fazer com que ela fique unida, sem preconceitos, sem exclusões.
O aluno que mal chegou, a turma já o acolheu, e todos vivem harmoniosamente.
Meninos e meninas na mais perfeita paz.
Nosso convívio é delicioso...
Hoje,no meio da nossa aula, um dos meus anjos, começou a ter um ataque de riso e não parava.
Chamei a atenção do meu aluno, ele olhou para mim e começou a rir. Não era um riso de deboche, é que ele não conseguia parar de verdade. Consegui reviver cenas de um passado tão distante..., pois comigo ocorria o mesmo, e no final das contas, acabei caindo na gargalhada com ele, e a turma toda nos acompanhou...
Sinto tanta saudades quando estou longe, pois cada olhar, sorriso e esforço demonstrado em realizar as tarefas, fazem do meu dia um verdadeiro sonho.
Esse ano fui privilegiada.... e como fui!!!!




